Formulação e Avaliação de um Biocosmético Funcional Seguro para Manutenção da Homeostase Cutânea.
- Miti Brianti
- 8 de jun.
- 20 min de leitura
À ser testado em Gestantes, Lactantes e Bebês
Projeto de pesquisa e desenvolvimento
Dra Mitsue Taukeuti Brianti
“Formulação e Avaliação de um Biocosmético Funcional Seguro para Manutenção da Homeostase Cutânea em Gestantes, Lactantes e Bebês”
Dra Mitsue Taukeuti Brianti
Campinas 06/2026
Resumo
Esse projeto abrange os segmentos de alimentos, cosméticos e higiene pessoal, com ênfase no subsegmento de saúde natural. Seu objetivo é desenvolver e avaliar um biocosmético funcional — um blend de óleos 100% vegetais e biocompatíveis, isento de aditivos sintéticos que possam representar riscos à saúde ou ao meio ambiente. A formulação será projetada para mimetizar a ação dos ácidos graxos naturalmente presentes na pele, promovendo a manutenção da barreira cutânea e contribuindo para a homeostase da pele em gestantes, lactantes e bebês. O produto será testado quanto à sua eficácia na prevenção de estrias em gestantes e na prevenção de fissuras mamilares em lactantes, assegurando que seu uso não comprometa a flora cutânea nem ofereça riscos à saúde do bebê durante o contato na amamentação.
O mercado global de cosméticos e cuidados pessoais foi estimado em US$ 548 bilhões em 2024, registrando um crescimento de 4,5% em relação ao ano anterior. No Brasil, o quarto maior mercado mundial, o faturamento anual atingiu aproximadamente US$ 26,9 bilhões. A demanda por produtos naturais e sustentáveis tem impulsionado o mercado de cosmecêuticos, estimado em US$ 68,67 bilhões em 2024, com projeção de crescimento para US$ 138,26 bilhões até 2032. No entanto, apesar desse crescimento e da maior conscientização dos consumidores, a indústria cosmética continua enfrentar desafios ambientais significativos. Uso de matérias-primas não sustentáveis, microplásticos, resíduos químicos, e o alto consumo de água na produção são fatores que comprometem a sustentabilidade do setor.
Além disso, muitos produtos convencionais contêm ingredientes sintéticos que são considerados disruptores endócrinos e substâncias alergênicas, associados a riscos para a saúde humana, como irritações cutâneas, desequilíbrios hormonais e efeitos adversos a longo prazo. Assim, mesmo frente a da crescente busca por alternativas mais seguras e sustentáveis, a indústria ainda enfrenta desafios na reformulação de suas práticas para minimizar esses impactos.
Diante desse cenário, este projeto surge alinhado às demandas contemporâneas por produtos seguros, sustentáveis e eficazes. O desenvolvimento será conduzido em etapas experimentais estruturadas, empregando metodologias de análise físico-química, bioquímica e genômica para avaliar a eficácia, segurança e viabilidade do produto. Além de atender às necessidades específicas de gestantes, lactantes e bebês, a proposta busca poder preencher uma lacuna no mercado ao oferecer um biocosmético funcional, seguro e sustentável. A iniciativa, também, contribui para a integração das ciências de alimentos à cosmética, promovendo um modelo de desenvolvimento mais saudável, biocompatível e ecologicamente sustentável para o setor.
Objetivos
Objetivo Geral da Fase 1:
Demonstrar a viabilidade técnico-científica e econômica da formulação de um biocosmético funcional baseado em blend de óleos vegetais biocompatíveis, com foco em segurança, eficácia e estabilidade para uso em peles sensíveis de gestantes, lactantes e bebês.
Objetivos Específicos
Desenvolver a formulação de um biocosmético funcional composto por óleos 100% vegetais, biocompatíveis, com propriedades emolientes e regenerativas, livres de aditivos sintéticos e potencialmente alergênicos.
Avaliar a estabilidade físico-química e microbiológica da formulação ao longo do tempo, segundo critérios de qualidade e segurança exigidos para produtos destinados a gestantes, lactantes e bebês.
Testar a inclusão de óleos essenciais encapsulados em proteínas vegetais como estratégia para aumentar a vida útil do produto sem a necessidade de conservantes sintéticos
Caracterizar os perfis bioquímicos e funcionais dos compostos lipídicos de diferentes óleos vegetais, com o objetivo de selecionar aqueles cujas propriedades, em conjunto, possibilitem o desenvolvimento de uma formulação com alta biocompatibilidade, capaz de mimetizar a barreira cutânea natural e promover a homeostase da pele.
Investigar os efeitos do biocosmético sobre a integridade da barreira cutânea, utilizando modelos in vitro e análises genômicas para avaliação da expressão de marcadores relacionados à cicatrização, regeneração e modulação inflamatória.
Investigar os efeitos da formulação sobre a microbiota cutânea, por meio de análises metagenômicas, visando garantir a manutenção da diversidade e integridade do microbioma da pele.
Realizar ensaios de segurança e toxicidade dérmica, com foco em irritabilidade, sensibilização e segurança de uso em áreas com contato direto com o neonato, segundo protocolos reconhecidos pelas normas da Anvisa e OECD.
Avaliar a eficácia do produto em contextos de uso real, com foco na prevenção de estrias durante a gestação e na redução de fissuras mamilares durante a lactação, por meio de estudo clínico observacional com voluntárias.
Investigar os impactos do uso do biocosmético no bem-estar físico e emocional de gestantes e lactantes, por meio de questionários padronizados, entrevistas qualitativas e escalas validadas de percepção de conforto, autoconfiança e qualidade de vida durante o uso do produto.
Avaliar a viabilidade tecnológica e econômica da formulação proposta, incluindo análise de sustentabilidade das matérias-primas, rastreabilidade, e escalabilidade do processo produtivo.
Introdução
A crescente conscientização sobre os riscos associados ao uso de substâncias sintéticas em cosméticos tem impulsionado a busca por alternativas naturais que respeitem a fisiologia cutânea e o equilíbrio do microbioma da pele. Ingredientes como parabenos, ftalatos, fragrâncias artificiais e tantos outros são frequentemente associados a reações adversas, como irritações cutâneas, potenciais disfunções endócrinas, impactos negativos à saúde reprodutiva e ao desenvolvimento neurológico, além de outros possíveis efeitos adversos a longo prazo (DARBRE; HARVEY, 2008; DODSON et al., 2012; MATTIOLI et al., 2021; HERZOG et al., 2021; VILLOTA et al., 2024; WANG et al., 2024).
A pele, órgão complexo, tem como função primordial atuar como barreira contra agentes externos, além de exercer papel fundamental na homeostase corporal. Essa barreira é sustentada em grande parte pela matriz lipídica da camada córnea, composta por ceramidas, colesterol e ácidos graxos essenciais (ELIAS; FEINGOLD, 2006). Paralelamente, o microbioma cutâneo — formado por comunidades de bactérias, fungos e vírus — desempenha papel essencial na defesa imunológica e na integridade da pele. Sua composição é influenciada por fatores como pH, secreção sebácea, umidade da pele e o uso de cosméticos (GRICE; SEGRE, 2011). Assim, o uso de produtos inadequados ou agressivos pode perturbar esse ecossistema, predispondo a dermatites, infecções e condições inflamatórias (BYRD; BELKAID; SEGRE, 2018).
Durante a gravidez e o puerpério, o organismo feminino passa por intensas transformações fisiológicas — incluindo alterações hormonais com modificações na composição lipídica da pele — que podem comprometer a integridade da barreira cutânea, desorganizando essa matriz lipídica, reduzindo a coesão entre os corneócitos e favorecendo o surgimento de condições como estrias e fissuras mamilares (RAWLINGS, 2003; LUPO; COLE, 2007; GALLAGHER et al., 2014).
Essas alterações fisiológicas quem aumentam a vulnerabilidade da pele, ampliam a necessidade por produtos que ofereçam cuidados específicos, eficazes e seguros. Além disso, a formulação de cosméticos para gestantes e lactantes exige uma abordagem que vá além da eficácia dos ingredientes, incorporando critérios rigorosos de segurança dermatológica, compatibilidade com o microbioma cutâneo e segurança sistêmica, tanto para a mãe quanto para o bebê (BYRD; BELKAID; SEGRE, 2018; EGERT; SIMMERING; RIEDEL, 2017). Sendo assim, a não inclusão de certos ingredientes e a seleção de ingredientes biocompatíveis, capazes de manter a integridade da barreira cutânea e preservar o equilíbrio do microbioma, torna-se ainda mais essencial.
Os óleos vegetais prensados a frio destacam-se nesse contexto como ingredientes biocompatíveis por apresentarem além de sua composição rica em ácidos graxos essenciais, tocoferóis e fitoesteróis com reconhecida atividade antioxidante e anti-inflamatória, esses óleos apresentam perfil de segurança superior quando comparados a ingredientes sintéticos, sendo bem tolerados mesmo por peles sensíveis (LIN et al., 2017; REISCHE et al., 2002). A literatura científica reforça que óleos como os de girassol, oliva e calêndula promovem regeneração tecidual, redução da perda transepidérmica de água e restauração da função de barreira (DARMSTADT et al., 2005; LOPEZ VALLEJOS et al., 2023). Tem-se verificado que os óleos com alto teor de ácido linoleico têm demonstrado eficácia na restauração da função de barreira e na redução da perda trans epidérmica de água (LIN; ZHONG; SANTIAGO, 2018). As propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes, que os óleos vegetais também podem exibir, favorecem o reparo tecidual e protegem contra o estresse oxidativo — efeitos especialmente relevantes em peles sensibilizadas e em cenário de cicatrização (DARMSTADT et al., 2004; NASIR, 2015; ALVES et al., 2019).
Vale ressaltar também que, no contexto do aleitamento materno, a integridade da pele mamilar é determinante para o sucesso da amamentação, já que fissuras nos mamilos estão entre as principais causas de dor e desmame precoce (DENNIS; JACKSON; WATSON, 2014). Óleos vegetais com propriedades cicatrizantes e anti-inflamatórias — como os de oliva, calêndula e jojoba — demonstraram acelerar a regeneração tecidual sem comprometer a microbiota cutânea (ROSA; GUIMARÃES; SILVA, 2019; ZAMPIERI; LOURENÇO; PAULINO, 2010).
Competidores, Propriedade Intelectual e Liberdade de Operação
O Brasil, como um dos maiores produtores mundiais de óleos vegetais, oferece uma ampla gama de matérias-primas com comprovada eficácia dermatológica. Óleos de castanha do Brasil, buriti, açaí, andiroba, copaíba, babaçu e pracaxi, por exemplo, são ricos em ácidos graxos essenciais e antioxidantes, com benefícios reconhecidos para o uso tópico em diversas condições de pele (ABELAN et al., 2022; NEVES et al., 2021). No entanto, apesar desse cenário favorável em termos de biodiversidade e potencial de desenvolvimento sustentável, o número de projetos e empresas atuando com foco em formulações 100% naturais, biocompatíveis e biodegradáveis ainda é bastante limitado. A maioria das soluções disponíveis no mercado recorre a componentes sintéticos ou formulações parcialmente naturais, sem considerar integralmente a compatibilidade com a pele humana e o impacto ambiental ao longo do ciclo de vida do produto. Esta lacuna evidencia uma oportunidade estratégica para o desenvolvimento de produtos que aliem alta performance dermatológica à responsabilidade socioambiental, posicionando o Brasil como protagonista em inovação sustentável no segmento cosmético.
Por exemplo, empresas como Mustela e Bio-Oil exploram ingredientes de origem vegetal e marketing voltado à prevenção de estrias ou hidratação intensa, mas muitas vezes incluem fragrâncias ou conservantes controversos. Internacionalmente, a Weleda, por exemplo, oferece linhas específicas para bebês e gestantes com formulações à base de extratos vegetais, mas nem sempre com rastreabilidade clara da origem botânica ou com comprovação robusta de eficácia cicatrizante para regiões sensíveis como os mamilos. Além disso, a atuação da Weleda no Brasil enfrenta limitações quanto à adaptação dos produtos ao nosso cenário peculiar: o clima predominantemente quente e úmido favorece maior propensão a processos inflamatórios, proliferação microbiana e alterações na estabilidade das formulações, exigindo cuidados adicionais com a biocompatibilidade e a performance dos produtos em pele tropical. Outro fator crítico é a diversidade étnica da população brasileira, que demanda soluções dermatológicas mais inclusivas, capazes de atender diferentes fototipos e sensibilidades cutâneas — aspecto pouco explorado pelas linhas importadas, muitas vezes formuladas com base em padrões europeus. Essa falta de adequação, somada à ausência de uma abordagem integralmente sustentável (que contemple biodegradabilidade e impacto ambiental), evidencia uma lacuna no mercado nacional para o desenvolvimento de formulações inovadoras, 100% naturais, eficazes e alinhadas às necessidades específicas das usuárias brasileiras.
Tem surgidos marcas nacionais como Simple Organic e Souvie que avançam no uso de ingredientes orgânicos certificados, mas focam majoritariamente em hidratação geral, sem abordagem específica para fissuras mamilares ou cuidados integrativos para mãe e bebê ou investimento em pesquisa e desenvolvimento nesse setor.
Assim, o produto a ser desenvolvido neste projeto apresenta diferenciais técnicos e científicos relevantes em relação aos cosméticos atualmente disponíveis no mercado. Trata-se de uma formulação funcional, 100% natural, composta exclusivamente por óleos vegetais biocompatíveis, selecionados com base em evidências científicas que comprovam seu potencial na regeneração da barreira cutânea, na modulação de processos inflamatórios e na promoção da cicatrização. O projeto contempla, a validação experimental do blend lipídico e a aplicação de tecnologia de encapsulamento de óleos essenciais em matrizes vegetais, visando garantir estabilidade, eficácia prolongada e testes genômicos para análise da preservação da microbiota cutânea.
No que se refere à propriedade intelectual, uma busca realizada no banco de patentes do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e da base internacional WIPO (World Intellectual Property Organization) evidencia um cenário de inovação crescente no campo da inclusão dos ingredientes naturais nos cosméticos, mas ainda muito tímido tendo em vista o potencial disponível em recursos e tecnologias. Identificamos registros de composições cosméticas contendo óleos vegetais diversos, especialmente para hidratação da pele ou uso como veículo. No entanto, não há patentes identificadas que descrevam blends com a composição que se pretende desenvolver ou similares, nem que especifiquem a indicação terapêutica direcionada à cicatrização de fissuras mamilares com segurança comprovada para lactantes e neonatos.
Patentes mais relevantes identificadas foram BR 10 2016 015728 5, referente a um sabonete líquido antimicrobiano à base de óleo de buriti desenvolvido pela UFG, e BR 10 2017 000897-5, que descreve um processo de obtenção de gel por ozonização de óleos vegetais pela UFMS. No entanto, apesar da reconhecida excelência científica das universidades estaduais paulistas, não foram identificadas patentes ativas vinculadas a essas instituições que abordem diretamente formulações cosméticas naturais. Essa lacuna demonstra uma significativa oportunidade de atuação no setor, conferindo ao presente projeto um elevado potencial de inovação e pioneirismo, ao propor uma formulação funcional segura, natural, e com respaldo científico, voltada a um público vulnerável e ainda negligenciado pela indústria cosmética nacional.
O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) também contribui com inovações, como cremes antioxidantes e evanescentes à base de óleos de pupunha e buriti, voltados para hidratação e regeneração da pele (BR 10 2017 000897-5). Além disso, a Universidade Federal do Ceará (UFC) desenvolveu um nanocosmético à base de cera de carnaúba e quercetina, com propriedades hidratantes, antioxidantes e fotoprotetoras, demonstrando a integração de ativos naturais em sistemas nanométricos (WO2017143421A1).
Adicionalmente, grande parte das patentes depositadas não descreve com clareza os percentuais dos componentes nem apresenta evidências científicas robustas da eficácia funcional da composição. Isso oferece ampla liberdade de operação (freedom to operate) para a empresa proponente, permitindo o desenvolvimento e posterior proteção do produto em âmbito nacional e internacional. Durante o projeto, será realizada uma análise aprofundada de patentes utilizando ferramentas de inteligência tecnológica para assegurar a originalidade e viabilidade de registro da formulação.
A estratégia da empresa prevê o depósito de patente de composição e uso, com escopo internacional, além da proteção de marca e rotulagem sensível para garantir posicionamento exclusivo no mercado. Como diferencial competitivo, será utilizada uma abordagem científica rigorosa no desenvolvimento e validação da formulação, integrando conhecimentos em bioquímica, fisiologia da pele, fitoterapia e genética, o que reforça a unicidade e sofisticação da proposta frente aos produtos cosméticos tradicionais.
Portanto, o biocosmético proposto se posiciona de forma inovadora, segura e eficaz, atendendo a uma demanda crescente por produtos naturais que respeitam a fisiologia da mãe e do bebê, ao mesmo tempo em que promove a regeneração tecidual de forma suave e compatível com o uso durante a amamentação. Essa combinação de diferenciais técnicos, respaldo científico e viabilidade de proteção intelectual confere ao projeto um alto potencial de inovação e competitividade no mercado nacional e internacional.
Inovação
A inovação central do desenvolvimento desse produto reside na formulação baseada exclusivamente em óleos vegetais 100% puros, sem adição de conservantes sintéticos, fragrâncias artificiais ou aditivos potencialmente alergênicos, usualmente presentes em cosméticos convencionais — mesmo aqueles voltados para peles sensíveis.
Além da composição limpa e natural, o projeto incorpora uma abordagem tecnológica avançada com a encapsulação de óleos essenciais em proteínas vegetais, como zeína ou proteína de arroz, para promover liberação controlada, maior estabilidade e segurança da formulação. Essa técnica representa um diferencial técnico-científico relevante, com potencial de aumentar a durabilidade do produto sem comprometer a integridade dos compostos bioativos.
Outra inovação destacada é o uso de análises metagenômicas do microbioma cutâneo, um campo emergente na dermatologia funcional, para garantir que o uso do biocosmético respeite e preserve a diversidade microbiana da pele — fator crucial para a saúde cutânea de bebês e mães. Além do potencial do projeto gerar dados relevantes para o desenvolvimento acadêmico na área.
Do ponto de vista da aplicação, a proposta também se diferencia por integrar aspectos emocionais e de bem-estar das usuárias, através de métricas qualitativas e quantitativas, reconhecendo o impacto psicossocial do autocuidado durante a gestação e lactação.
Essa convergência entre ciência, tecnologia e cuidado integral resulta em um produto inovador não apenas por sua composição, mas por sua abordagem multidimensional, alinhada com as tendências globais de saúde natural, sustentabilidade e personalização de cuidados dermocosméticos.
E por fim, a iniciativa de aproximar a engenharia de alimentos da cosmética natural como solução para inovação que incrementa saúde e sustentábilidade.
Caracterização bioquímica e funcional com ênfase na mimetização da barreira cutânea
A pele humana possui uma barreira cutânea altamente especializada, composta predominantemente por lipídios como ceramidas, ácidos graxos livres, colesterol e seus derivados. A escolha de óleos vegetais que mimetizem essa barreira depende da identificação de perfis lipídicos compatíveis, particularmente no que se refere à proporção de ácidos graxos essenciais como ácido linoleico (ômega-6), que é fundamental para a função de barreira e regeneração epidérmica (LAMPSON et al., 2021).
A composição do estrato córneo apresenta cerca de 50% ceramidas, 25% colesterol e 10-15% ácidos graxos livres, além de outras frações lipídicas menores (ELIAS, 2005). Óleos vegetais ricos em ácido linoleico, como os de cártamo, girassol, uva e rosa mosqueta, demonstraram alta afinidade com a estrutura da barreira lipídica natural, favorecendo sua reconstrução e homeostase (LIN; ZHONG; SANTIAGO, 2017).
Além disso, óleos com alto teor de fitosteróis e tocoferóis (como o de buriti e pracaxi) não apenas contribuem com a hidratação, mas também com propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes que colaboram para a integridade da pele (KOHLI et al., 2022; NEVES et al., 2021). Tais compostos podem ser identificados e quantificados por cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massa (GC-MS) e RMN, técnicas que serão utilizadas neste projeto para caracterização bioquímica detalhada.
A seleção dos óleos para a formulação será realizada com base em: (i) semelhança do perfil de ácidos graxos com os presentes na barreira cutânea, (ii) capacidade de promover reparo da barreira e retenção hídrica, e (iii) baixa irritabilidade e compatibilidade com peles sensíveis.
Metodologia
Seleção e Caracterização dos Ingredientes
Revisar a literatura científica para identificar óleos vegetais prensados a frio, integrais e de grau alimentício com potencial biocompatível e propriedades emolientes, cicatrizantes, anti-inflamatórias e hipoalergênicas.
Realizar análises físico-químicas e espectrometria de massa para caracterizar a composição lipídica dos óleos e sua semelhança com os ácidos graxos presentes na pele.
Filtragem e Testes Microbiológicos
Realizar processos de purificação e testes microbiológicos para garantir a segurança dos óleos vegetais utilizados na formulação, prevenindo contaminações microbiológicas.
Desenvolvimento da Formulação e Estratégias de Conservação
Definir a proporção ideal dos óleos na formulação, garantindo estabilidade e eficácia na manutenção da barreira cutânea.
Testar a encapsulação de óleos essenciais em proteínas vegetais como estratégia para aumentar a vida útil do produto sem a necessidade de conservantes sintéticos.
Avaliar a capacidade da encapsulação de minimizar o potencial irritante dos óleos essenciais e evitar danos às mucosas e à microbiota cutânea das lactantes e bebês.
Avaliação da Biocompatibilidade e Eficácia da Formulação
Realizar testes clínicos e laboratoriais para verificar a eficácia do biocosmético na manutenção da saúde da pele, incluindo a regeneração cutânea e a prevenção de estrias e fissuras mamilares.
Avaliar potenciais impactos no aparelho gastrointestinal do bebê para garantir a segurança do produto durante a amamentação.
Impacto no Microbioma Cutâneo
Monitorar a microbiota da pele por meio de análises genômicas de sequenciamento para avaliar a manutenção da integridade da flora cutânea após o uso do biocosmético.
Testes de Segurança e Eficácia em Voluntárias
Realizar testes de segurança dermatológica (patch test, HRIPT - Human Repeat Insult Patch Test) para avaliar a compatibilidade com a pele.
Avaliar a eficácia da formulação na manutenção da barreira cutânea por meio de testes instrumentais (ex.: corneometria, TEWL – perda de água transepidérmica).
Conduzir testes clínicos iniciais em voluntárias não gestantes, antes de avançar para gestantes e lactantes, assegurando segurança e eficácia.
Avaliar a eficácia na prevenção de estrias em gestantes e de fissuras mamilares em lactantes, considerando hidratação, elasticidade cutânea e regeneração.
Impacto no Bem-Estar
Aplicar questionários validados para medir conforto dérmico, percepção sensorial e bem-estar durante a gestação e amamentação.
Analisar a aceitação do produto pelas usuárias, considerando sensação na pele, facilidade de aplicação e efeitos percebidos.
Estudo de Viabilidade e Inserção no Mercado
Conduzir uma análise preliminar de viabilidade comercial e competitividade do produto no setor de biocosméticos naturais e sustentáveis.
Desenvolver um modelo de produção escalável e sustentável para futura comercialização do biocosmético.
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ZAMPIERI, M. C. T.; LOURENÇO, M. T. A.; PAULINO, C. A. Avaliação do uso do extrato glicólico de Calendula officinalis L. em feridas cutâneas de ratos. Revista Brasileira de Farmacognosia, 20(3), 397–402, 2010. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-695X201000030001.
Relevância Tecnológica
A proposta deste projeto se insere em um contexto de crescente demanda por produtos cosméticos naturais, funcionais e seguros, especialmente voltados ao público de gestantes, lactantes e bebês. Este nicho apresenta desafios específicos relacionados à formulação de produtos que não apenas cumpram funções estéticas, mas que também promovam a manutenção da barreira cutânea, a prevenção de microlesões e a integridade do microbioma cutâneo (DRAELOS, 1997). No entanto, o mercado ainda carece de soluções tecnológicas inovadoras que conciliem eficácia terapêutica, biocompatibilidade e ausência de risco para populações vulneráveis.Apesar do avanço da cosmética natural, muitos produtos atualmente disponíveis utilizam conservantes, emulsificantes e fragrâncias sintéticas que podem desencadear processos irritativos ou interferir no equilíbrio da microbiota cutânea (HALLA et al., 2018). Além disso, há escassez de formulações direcionadas especificamente à pele da região mamilar no período de lactação — área que exige cuidados especiais por estar sujeita à umidade, atrito e agressões mecânicas durante a amamentação (JACKSON; DENNIS, 2016).Do ponto de vista tecnológico, os óleos vegetais prensados a frio representam uma plataforma promissora de inovação. Além de sua composição rica em ácidos graxos essenciais, tocoferóis e fitoesteróis com reconhecida atividade antioxidante e anti-inflamatória, esses óleos apresentam perfil de segurança superior quando comparados a ingredientes sintéticos, sendo bem tolerados mesmo por peles sensíveis (LIN et al., 2017; REISCHE et al., 2002). A literatura científica reforça que óleos como os de girassol, oliva e calêndula promovem regeneração tecidual, redução da perda transepidérmica de água e restauração da função de barreira (DARMSTADT et al., 2005; LOPEZ VALLEJOS et al., 2023).A formulação proposta neste projeto — baseada em um blend de óleos vegetais 100% naturais — busca superar as limitações tecnológicas atuais ao evitar o uso de componentes controversos como parabenos, silicones e fragrâncias artificiais. Além disso, diferentemente da maioria dos cosméticos disponíveis no mercado, o produto será submetido a um processo sistemático de avaliação funcional, incluindo ensaios físico-químicos, microbiológicos e genômicos para avaliar a integridade da barreira cutânea e a compatibilidade com a microbiota (FORBES et al., 2017).Trata-se, portanto, de uma tecnologia com alto potencial de inovação incremental, mas com impacto disruptivo no nicho de dermocosméticos materno-infantis, ainda subatendido pela indústria. O desenvolvimento desse biocosmético funcional atende às tendências de mercado voltadas à sustentabilidade, clean beauty e personalização, com potencial de escalabilidade industrial e viabilidade técnica comprovada a partir de matérias-primas de origem vegetal já consolidadas quanto à segurança dermatológica (CAMPOS et al., 2022).O produto se destaca ainda por seu alinhamento com os princípios de sustentabilidade, já que a cadeia produtiva proposta prioriza óleos provenientes de agricultura local e processos de extração de baixo impacto ambiental. Esta abordagem não apenas agrega valor à biodiversidade brasileira, como também contribui para a consolidação de uma tecnologia nacional com capacidade de exportação e inserção no mercado global de cosméticos naturais.
Referências
CAMPOS, Patrícia Maria de Souza et al. Clean beauty – literature review of new trends in cosmetics. Surgical & Cosmetic Dermatology, v. 14, 2022. DOI: 10.5935/scd1984-8773.2022140137. Disponível em: https://www.scielo.br/j/scd/a/kLvP6cwMcKVRpCvKVN5txvh/?lang=en.
DARMSTADT, Gary L. et al. Effect of topical treatment with skin barrier-enhancing emollients on nosocomial infections in preterm infants in Bangladesh: a randomised controlled trial. The Lancet, v. 365, n. 9464, p. 1039–1045, mar. 2005. DOI: 10.1016/S0140-6736(05)71140-5. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(05)71140-5.
DRAELOS, Zoe Diana. Sensitive skin: perceptions, evaluation, and treatment. American Journal of Contact Dermatitis, v. 8, n. 2, p. 67–78, jun. 1997.
FORBES, Jessica D. et al. Metagenomics: The next culture-independent game changer. Frontiers in Microbiology, v. 8, p. 1069, 2017. DOI: 10.3389/fmicb.2017.01069.
HALLA, Noureddine et al. Cosmetics preservation: A review on present strategies. Molecules, [S.l.], v. 23, n. 7, p. 1571, 2018. DOI: 10.3390/molecules23071571. Disponível em: https://doi.org/10.3390/molecules23071571.
JACKSON, Kimberley T.; DENNIS, Cindy-Lee. Lanolin for the treatment of nipple pain in breastfeeding women: a randomized controlled trial. Maternal & Child Nutrition, v. 12, n. 3, p. 471–479, 2016. DOI: 10.1111/mcn.12357.
LIN, Tzu-Kai; ZHONG, Lily; SANTIAGO, Juan Luis. Anti-inflammatory and skin barrier repair effects of topical application of some plant oils. International Journal of Molecular Sciences, v. 19, n. 1, p. 70, 2017. DOI: 10.3390/ijms19010070.
LOPEZ VALLEJOS, María Julia et al. Caracterização fitoquímica de extratos de Calendula officinalis. Revista Ion, [S.l.], v. 36, n. 1, p. 91–99, 2023. Disponível em: https://doi.org/10.18273/revion.v36n1-2023007. Acesso em: 15 abr. 2025.
REISCHE, D. W.; LILLARD, D. A.; EITENMILLER, R. R. Antioxidants. In: AKOH, C. C.; MIN, D. B. (ed.). Food lipids: chemistry, nutrition and biotechnology. New York: Marcel Dekker, 2002. cap. 15, p. 489–516. DOI: 10.1201/9780203908815.ch15.
Relevância Econômica e Potencial do Brasil
O Brasil apresenta uma combinação estratégica de vantagens naturais, econômicas e culturais que o posiciona como um protagonista emergente no setor de biocosméticos. O país abriga a maior biodiversidade vegetal do planeta, com mais de 50 mil espécies de plantas descritas, das quais cerca de 10% têm potencial para uso cosmético, medicinal ou alimentício (Ming et al., 2022). Essa diversidade, associada à crescente demanda global por produtos naturais e seguros, cria uma oportunidade singular para o desenvolvimento de tecnologias cosméticas sustentáveis e baseadas em ingredientes de origem vegetal.
O mercado global de cosméticos naturais e orgânicos tem experimentado crescimento constante. Segundo relatório da Grand View Research (2022), esse segmento deve movimentar mais de US$ 79 bilhões até 2030, com taxa de crescimento anual composta (CAGR) estimada em 9,6%. No cenário nacional, o Brasil é o quarto maior mercado consumidor de cosméticos do mundo. De acordo com a Statista (2024), o setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos movimentou R$ 134 bilhões em 2022, porém apenas uma fração desse mercado é ocupada por produtos naturais certificados.
A formulação de biocosméticos funcionais com base em óleos vegetais brasileiros, como proposto neste projeto, está alinhada às preferências dos consumidores por produtos mais seguros, eficazes e ambientalmente responsáveis (Silva et al., 2020). O uso de matérias-primas locais fortalece cadeias produtivas sustentáveis, muitas delas ligadas a comunidades tradicionais, contribuindo diretamente para a bioeconomia nacional e a valorização do conhecimento etnobotânico (Albuquerque et al., 2020).
Além disso, a substituição de ingredientes sintéticos — comumente associados a alergias e contaminação ambiental — por compostos naturais obtidos por extração verde contribui para reduzir os impactos ecológicos da indústria cosmética (Pinto et al., 2021). Tais estratégias estão em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, em especial os ODS 3 (Saúde e Bem-estar), ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura) e ODS 12 (Consumo e Produção Sustentáveis) (UNDP, 2020).
Portanto, o presente projeto visa não apenas atender à demanda crescente por produtos voltados a públicos sensíveis — como gestantes, lactantes e bebês —, mas também consolidar o Brasil como referência global em inovação cosmética baseada na biodiversidade e na sustentabilidade.
Referências
Albuquerque, U. P., Medeiros, P. M., & Almeida, A. L. S. (2020). Biodiversity, traditional knowledge and sustainable development. Springer. https://doi.org/10.1007/978-3-030-30155-7
Grand View Research. (2022). Natural & Organic Personal Care Market Size, Share & Trends Analysis Report. https://www.grandviewresearch.com/industry-analysis/natural-organic-personal-care-market
Ming, L. C., Silva, A. P. S., Albuquerque, U. P. (2022). Biodiversity and phytocosmetics: perspectives and strategies for innovation in Brazil. Brazilian Journal of Pharmacognosy, 32, 405–412. https://doi.org/10.1007/s43450-021-00130-7
Pinto, J. P., Silva, A. C., & Souza, L. L. (2021). Green technologies in cosmetics: the challenge of sustainability. Brazilian Journal of Pharmaceutical Sciences, 57, e191043. https://doi.org/10.1590/s2175-979020190004191043
Silva, M. C. M., Almeida, R. C., & Almeida, F. A. (2020). Biocosméticos: uma abordagem sustentável para a indústria cosmética brasileira. Revista Brasileira de Ciências Ambientais, 55, 1–12. https://doi.org/10.5327/Z2176-947820200650
Statista. (2024). Cosmetics market revenue in Brazil. https://www.statista.com/statistics/812146/revenue-cosmetics-industry-brazil/
UNDP. (2020). Sustainable Development Goals – Brazil. https://www.br.undp.org/content/brazil/pt/home/sustainable-development-goals.html



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